SIGNIFICADO E ALCANCE DA
“ESPAÇONUMERÁTICA”
Espaçonumerática é a ciência que aborda e relaciona entre
si os conceitos de Espaço e de Número, num contexto
simultaneamente científico e simbólico. Geralmente conhecida por Geometria Sagrada, pareceu-me no entanto
que a palavra Geometria, do grego gê (terra) e metron (medida), era, de certo modo, insuficiente para expressar a
universalidade dos dois conceitos em que está fundamentada. Além disso, da
minha pesquisa nesta área resultou uma sistematização de princípios capazes de
relançar as bases desta ciência milenar, razão porque procurei uma palavra
moderna que pudesse designar esta ciência antiga. E assim nasceu a palavra Espaçonumerática.
Dizia
Pitágoras que o Número rege o universo. Bastou, no entanto, o problema levantado
pela incomensurabilidade entre o lado e a diagonal de um quadrado
para que a sua filosofia fosse rejeitada e se abrissem os caminhos que
conduziriam à Matemática que
conhecemos, o que fez com que o conceito de Número
se afastasse cada vez mais daquele idealizado por Pitágoras, que
fundamentava o seu aforismo no conceito de “número
inteiro”.
Apesar
disso, e como que a confirmar a contestada frase do matemático Leopold
Kronecker "Deus fez os números
inteiros, o resto é obra do Homem", eis que cientistas modernos se
viram de novo para o pitagorismo, convencidos - tal como Pitágoras, Aristóteles
ou Platão - que apenas a Estrutura e
o Número contam na percepção do mundo
que nos rodeia.
A redescoberta da estética Neo-Pitagórica
veio, de facto, a coincidir com a deslumbrante ressurreição do pitagorismo
científico (para citar Bertrand Russel: “Talvez a coisa mais estranha acerca da
Ciência Moderna seja o seu regresso ao Pitagorismo”). Platão e os
Neo-Pitagóricos tinham afirmado claramente que a Estrutura e o Número são as
únicas coisas que contam na nossa percepção, ou melhor - reconstrução - do
mundo externo. E a ciência moderna, com a sua busca de «invariantes» e
estrutura de grupo, chegou à mesma conclusão através de Einstein, Eddington e
Jeans. (“O
pensamento, tomado no seu significado mais geral de modo a conter a Arte, a Filosofia, a Religião e a Ciência,
tomadas elas próprias na sua concepção mais ampla, é a procura da invariância
num mundo flutuante” C.J. Keiser. E Eddington: “Tudo o que a Física nos revela
sobre o mundo exterior é uma estrutura em conformidade com a Teoria ou
Estrutura de Grupos”)
Como
se sabe, por trás de um mundo em permanente mudança ocultam-se estruturas fixas e leis básicas que comandam a aparição de formas e fenómenos, e a sua
transformação. Logo, descobrir essas estruturas e leis significa descobrir a unidade básica do Universo, sendo esta
unidade uma característica comum da ciência e do misticismo, como o afirma
claramente Fritjof Capra no seu livro The
Tao of Physics:
A unidade básica do Universo não só é característica central
da experiência mística, mas também uma das mais importantes revelações da
Física moderna. (...) À medida que se estuda os vários modelos da física
subatómica vemos que eles expressam sempre, de maneiras diversas, o mesmo ponto
de vista - que os elementos constituintes da matéria e os fenómenos básicos que
os envolvem estão todos interligados, interrelacionados e interdependentes; que
eles não podem ser compreendidos com entidades isoladas, mas sim como partes
integrantes de um todo.
Assim também com o misticismo. Embora as tradições
espirituais difiram entre si em diversos pormenores, os seus pontos de vista
sobre o mundo são essencialmente os mesmos. Eles são baseados numa experiência
mística, cuja característica mais importante é a percepção da unidade e
inter-relação de todas as coisas e acontecimentos, a experiência de todos os
fenómenos do mundo como sendo manifestações da mesma unidade básica. Todas as
coisas são vistas como partes interdependentes e inseparáveis deste todo
cósmico.(...)
Enquanto o físico moderno sente o mundo através de uma
extrema especialização do espírito racional, o místico sente-o através de uma
extrema especialização do espírito intuitivo. Estas duas aproximações são
completamente diferentes, embora sejam complementares. Nenhuma delas está
compreendida na outra, nem nenhuma delas pode ser reduzida à outra. Ambas são
necessárias, completando-se uma à outra para um melhor entendimento do mundo. A
verdade é que a ciência não precisa do misticismo, e o misticismo não precisa
da ciência; mas o homem precisa de ambos.
Tudo
indica que, em épocas remotas, a Humanidade soube conjugar a ciência e o
misticismo. A testemunhar esse Conhecimento existe uma série de monumentos, mitos e tradições e também
uma vasta literatura de natureza sagrada.
Essa
sabedoria era preservada no Templo,
que simultaneamente escondia e exibia, de um modo simbólica, o Cânone Sagrado de Cosmologia, não só
integrado nos rituais do Templo, como nas leis e costumes do povo.
Com a evolução dos tempos
e o desenvolvimento de uma tecnologia científica cada vez mais aperfeiçoada, o
Homem foi-se afastando progressivamente dessa referência canónica e sagrada,
passando a criar, ele próprio, os seus modelos nacionais, planetários e
cósmicos.
Nessa
dispersão do Conhecimento original o ser humano acabou por se perder num
labirinto de saberes não comunicantes, fragmentados e autónomos, actualmente
traduzido por um vasto leque de opções, que vai desde o Fundamentalismo
Religioso ao Ateísmo, passando pelo ideal da Democracia.
Daí
a necessidade urgente do Homem “recuperar
o sentido do sagrado, a sua verdadeira memória e a dignidade da sua vocação
primordial”.
Ajudar
a consegui-lo é um dos principais objectivos da Espaçonumerática, esta ciência onde se cruzam duas formas de
linguagem - uma científica, outra simbólica - ambas essenciais para uma
visão e compreensão holística do Homem e do Universo.
Como
linguagem científica ela resgata o
conceito pitagórico de Número e
propõe à Matemática novas soluções para
alguns dos seus mais velhos problemas, sugerindo uma revisão de base a alguns
dos conceitos em que está fundamentada.
Como
linguagem simbólica vai ao encontro
da Tradição, no seu sentido mais
lato, e restitui-lhe o profundo significado dos seus símbolos.
Neste
sentido, a palavra Tradição significa
a transmissão ininterrupta do
Conhecimento nos seus múltiplos aspectos, de modo a facilitar a tomada de consciência
de princípios imanentes da ordem universal, podendo tomar dois aspectos
diferentes: um exotérico (exterior),
que se manifesta de forma doutrinária e ritualista, outro esotérico (interior), apenas transmissível através de uma linguagem
simbólica.
Diz
René Alleau no seu livro "Les
Sociétés secrètes" que a
presença dos símbolos - signos enigmáticos e de expressão misteriosa das
tradições religiosas - as obras de arte,
os contos e os costumes do folclore provam a existência de uma linguagem universal
espalhada no Oriente, assim como no Ocidente, cujo significado trans -
histórico parece situar-se na raiz da nossa própria existência, dos nossos
conhecimentos e dos nossos valores.
De
facto, esta linguagem universal está
presente por toda a parte e surge, quase sempre, num contexto sagrado. Basta ver como a Bíblia, por exemplo, está repleta de
símbolos, muitos deles de natureza numérica, ou numérico - geométrica.
Cito
apenas dois exemplos: o número de dias da
Criação referido no Livro do Génesis,
e as dimensões da cidade santa mencionada
no Livro do Apocalipse.
Quanto
ao primeiro exemplo é óbvio que não se pode “levar à letra" o número de
dias da Criação se esta contagem tiver como unidade de tempo o nosso dia
terrestre. Sabe-se hoje que a evolução do Universo está estimada em cerca de 14
biliões de anos e, como disse Carl Sagan, se compararmos o “ano cósmico” com o
“ano terrestre”, a espécie humana, por exemplo, apenas surge nos últimos segundos do último minuto do
último dia do ano, o que significa que, neste cenário de grandiosidade
cósmica, 99,998% da história do Universo
decorreu antes do aparecimento em cena da nossa espécie. Logo, o processo
criativo original associado ao número seis tem um sentido figurado, podendo
apenas ser decifrado através da ciência
do Espaço e do Número. Precisamente os conceitos que se conjugam, de forma
clara, no segundo exemplo, uma vez que as dimensões da Cidade Santa do Livro do
Apocalipse, referida como uma “Nova Jerusalém”, correspondem às de um cubo com
12.000 côvados de aresta.
Nestes
dois conceitos - Forma e Número -
são também alicerçadas as dimensões do Templo, cuja principal função foi, desde sempre, a de ligar e
estabelecer uma correspondência entre o Homem
(microcosmos) e o Universo
(macrocosmos).
Embora
as medidas possam diferir de templo para templo, todas elas são, no entanto,
passíveis de uma interpretação numérica através do cânone sagrado que as unifica.
Citando John Michell em City of
Em todas as descrições da cidade santa é
posta em relevo a importância das suas dimensões; e isto tem um significado
literal, pois a construção do templo contém os segredos do mundo antigo,
expostos de tal modo que podem ser lidos por qualquer pessoa, de qualquer
época, que deseje retomar o estudo da linguagem em que foram escritos, ou seja,
a linguagem da geometria e do número.
Dos
muitos livros sagrados onde esta linguagem é referida será de destacar a Bíblia - um livro que não se limita a
expor uma doutrina, mas refere também a história do Universo num plano
simultaneamente natural e transcendente, desde o princípio ao fim da Criação,
terminando com a referência a uma nova Criação, onde sobressai, como paradigma
da perfeição, a forma cúbica da Cidade
Santa ou Nova Jerusalém referida
no Livro do Apocalipse. O que significa
que, no seu contexto simbólico, a Bíblia,
assim como outros livros sagrados, são documentos codificados. O mesmo
acontecendo com alguns "livros de pedra" como, por exemplo, a Grande Pirâmide do Egipto e a Catedral de
Chartres - verdadeiros repositórios de uma ciência aparentemente esquecida
- e com muitos dos símbolos ligados à história da Humanidade, cuja origem e
significado parecem perdidos no tempo.
Em
suma: devido ao seu carácter universal, a ciência
do Espaço e do Número é o mais alto grau de Conhecimento a que o Homem pode
aspirar, e nesse Conhecimento a Ciência está inevitavelmente ligada à Religião.
Razão porque urge restabelecer a aliança entre ambas e pôr termo à aparente
dualidade que opõe o mundo objectivo ao subjectivo, o racional ao intuitivo, a
ciência ao misticismo.
Se,
no aspecto científico, se torna necessário ordenar e interligar os diferentes
aspectos da Ciência, no que diz respeito ao aspecto profundo e simbólico da
Religião, como o sugere Réné Alleau no seu livro Les Sociétés Secrètes, seria
necessário reconstituir num só corpo a unidade tradicional dos mistérios, a fim
de propor à Ciência, à Filosofia, à Arte e à própria Religião, uma
ecumenicidade fundada sobre uma ordem, a ordem dos mistérios, e não sobre uma Igreja.
Como
diz autor:
É aí que
verdadeiramente está a chave não só de uma revolução económica e social que
deve de qualquer modo intervir, a fim de restituir o mundo ao Homem; é aí que
está a chave de uma revelação moral e espiritual que pode restituir o Homem ao
mundo sagrado, sem a qual toda a revolução apenas material não é senão um
logro. É o homem inteiro que é necessário mudar e não apenas o homem social e
económico; e é o coração do homem, e não apenas o seu corpo, que deve ser o
centro e finalidade de todos os esforços. Só desta maneira será possível que um
dia venha a surgir uma nova consciência, a única capaz de realizar o equilíbrio
que tão dolorosamente procuramos ainda entre conhecimento e evolução
espiritual.
A condição humana actual é de dispersão:
dispersão no tempo, dispersão no espaço, dispersão nos desejos, dispersão no
conhecimento, dispersão na acção. A humanidade de hoje é uma humanidade
dispersa numa multiplicidade de fragmentos e de mundos lógicos autónomos e sem
comunicação mútua. Ora, toda a dispersão tem por resultado a diminuição de
consciência. A humanidade actual está em vias de perder a consciência e isso é
ainda mais grave do que os riscos atómicos. Torna-se, por isso, necessário
restituir-lhe o sentido do sagrado e, deste modo, a sua verdadeira memória e a
dignidade da sua vocação primordial.
Mas, será que é possível
a unidade dos povos, das culturas, das tradições e das religiões?
Acredito que sim, embora
para que isso aconteça seja necessário que o ser humano se reencontre num
contexto universal e ponha de parte todos os partidarismos ou sectarismos que o
mantém artificialmente separado. Afinal, a nossa história começa com a história
do Universo, e essa é igual para todos. É preciso, pois, descobri-la à luz de
uma tradição original e de conhecimentos científicos modernos válidos para
todos os povos e etnias. Deste modo, livres de preconceitos, poderemos ir ao
encontro de uma pedagogia global, válida para todos os seres humanos, através
de uma linguagem que não é exclusiva de nenhum povo, mas sim património comum
da Humanidade.
Lucília